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Meu filho está com leucemia infantil. E agora?

Leucemia Infantil
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A boa notícia é que os casos em crianças são altamente curáveis. E aqui, você vai saber como se dá todo o tratamento

Escrito por:

Natália Mancini

Nos últimos três anos, cerca de 8,4 mil crianças receberam um diagnóstico de câncer. Quase 1/3 (28%) desses diagnósticos são de leucemia infantil, o câncer mais comum na faixa etária de 0 a 19 anos. Depois, 26% são de tumores do sistema nervoso central (SNC) e 8% são linfomas. Diversos estudos e a prática clínica mostram que, apesar da maior quantidade de casos de leucemia, esse tipo de câncer infantil apresenta uma alta probabilidade de cura. A maior parte das crianças (90%) que realiza o tratamento adequado alcança a remissão completa. Sarah, que atualmente tem 11 anos, faz parte desse grupo.

Vanessa Valente, mãe da Sarah, conta que a filha tinha 4 anos e 11 meses quando começou a ter dores nas pernas, febre durante a noite, fraqueza e diversos hemogramas indicando que ela estava com anemia. Esses são sintomas de leucemia infantil muito comuns, embora existam outros, como palidez, cansaço e sonolência, hematomas, infecções constantes, caroços pelo corpo, baço aumentado e perda de peso sem explicação.

Os sintomas, quando analisados de forma separada, podem não gerar nenhum alerta, já que são semelhantes a outras condições benignas da infância. Por exemplo, qual criança nunca ficou gripada e teve febre? Brincou muito e ficou cansada? Ou então, até mesmo, sentiu a chamada “dor do crescimento”?

Entretanto, existem alguns detalhes que diferenciam esses quadros, que precisam de atenção, e que podem auxiliar no diagnóstico precoce, fundamental para aumentar as chances de cura.

O Dr. Lauro Gregianin, oncopediatra do Instituto do Câncer Infantil, explica que as dores do crescimento acontecem em crianças com idade de 5 a 10 anos. Duram poucos minutos e ocorrem, principalmente, durante a noite. No caso da dor relacionada à leucemia infantil, costuma ser mais intensa e aumenta ao longo dos dias.

No caso da febre causada por uma gripe, o Dr. Gregianin diz que “ela costuma ter um curso relativamente agudo, surgindo em associação com sintomas respiratórios. Como tosse, coriza, falta de apetite e, eventualmente, diarreia”. Nesses casos, a tendência é que a febre dure de cinco a sete dias e diminua de intensidade, ao mesmo tempo em que desaparecem os sintomas respiratórios. Por outro lado, a febre na leucemia é persistente e recorrente. A persistência também deve ser observada no caso do cansaço e da fadiga.

“Nessa situação, é muito fácil associar o sintoma com o fator causal, ou seja, a atividade em excesso. Também sabemos que com algumas horas de repouso esses sintomas desaparecerão”, ressalta o médico. Por outro lado, quando esses sintomas acontecem devido à leucemia, eles ocorrem de maneira constante, mesmo se o jovem estiver em repouso.

Vanessa percebeu, justamente, que havia algo de diferente nos sinais que a filha estava apresentando.

“Levei a Sarah ao Programa Saúde da Família (PSF). O Dr. Ricardo Amorim achou muito estranha a situação dele e pediu uma avaliação com uma hematologista. Ela, no entanto, não encontrou a leucemia logo de cara. A Sarah tomou ácido fólico por dois meses, porque achavam que era anemia, mas sem melhora. Quando levei-a novamente na mesma médica, ela continuava com os exames muito ruins e foi internada no Hospital Santa Isabel de Ubá, em Minas Gerais”, relembra.

A mãe conta que elas ficaram nesse segundo hospital por quatro dias, enquanto a Sarah realizava alguns exames e aguardava uma vaga para ser transferida para Juiz de Fora, também em Minas Gerais.

“O processo foi difícil, porque não sabia por qual motivo ela estava internada, nem o porquê de ir para outra cidade. Ainda estava sem um diagnóstico fechado. Mas a Sarah sempre teve uma confiança muito grande em mim. Eu falava com ela: ‘Filha, agora vamos fazer exame de sangue, tá? É só uma picadinha e acabou’. Ela chorava, ficava brava, mas fazia”, complementa Vanessa.

Como diagnosticar leucemia infantil?

Quando Sarah chegou no terceiro hospital, tudo já estava preparado para que ela pudesse fazer os exames necessários no dia seguinte.

A Dra. Silvia Brandalise, médica, pesquisadora, fundadora e presidente do Centro Infantil Boldrini, fala que o primeiro exame que gera a suspeita de leucemia infantil é o hemograma. Os resultados, geralmente, mostram alterações nos níveis de hemoglobina e plaquetas e indica a presença de blastos.

Criança E Mãe No Médico

Para confirmar se é leucemia são feitos, em seguida, uma série de exames. Como o mielograma (para investigar e confirmar as alterações indicadas pelo exame de sangue); imunofenotipagem (para verificar as características das células); ultrassonografia (para avaliar se o baço está aumentado) e o estudo do líquido da espinha, chamado de líquor, (para saber se há células da leucemia no Sistema Nervoso Central). Foi justamente esse último exame que confirmou o diagnóstico da Sarah.

“Foi na pulsão lombar, na coleta do líquor, onde tudo foi descoberto. Um dia inteiro de espera. Ao final do dia, a equipe médica veio ao quarto para conversar comigo. Ali, nossa vida virou de ponta-cabeça. Iniciava- se todo um tratamento, protocolos e exames para a leucemia linfoide aguda (LLA). Uma rotina totalmente diferente do que já tínhamos vivido até aquele momento”, relembra Vanessa.

Porém, desde o momento do diagnóstico, os médicos avisaram que as chances de cura eram bem altas e isso ajudou, aos poucos, a amenizar a dor. A LLA infantil é o tipo mais comum de leucemia na faixa etária e apresenta um ótimo prognóstico.

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Do tratamento à remissão

Atualmente, a poliquimioterapia (quimioterapia com mais de uma droga) é o principal tratamento para a LLA em crianças e adolescentes. Isso porque, ele oferece uma maior sobrevida e qualidade de vida aos pacientes, visando, principalmente, amenizar os efeitos colaterais tardios.

Tratamento Para Leucemia Infantil

“No Brasil, até o final da década de 1970, o tratamento da leucemia em crianças era feito por hematologistas de adultos, sem o uso da Asparaginase. As taxas de sobrevida, em cinco anos, eram inferiores a 10%”, conta a Dra. Brandalise.

Em 1980, foi estabelecido o primeiro protocolo de tratamento de leucemia linfoide aguda. “É interessante observar que as drogas Prednisona, Vincristina, Daunoblastina e Asparaginase já faziam parte do regime da terapia de indução. Esse esquema permanece até hoje”, diz a doutora.

Além disso, em todos os casos é recomendado que o paciente faça a quimioterapia intratecal, administrada direto no líquido cefalorraquidiano. O objetivo é destruir qualquer célula que possa ter se espalhado para o cérebro e/ou medula espinhal, ou prevenir que isso aconteça.

No caso da Sarah, ela fez nove ciclos de quimioterapia e, ao final, 10 sessões de radioterapia profilática. A médica esclarece que a radioterapia, após a quimioterapia, atualmente, só é realizada em pacientes com mais de 100 mil glóbulos brancos no diagnóstico e para aqueles com envolvimento do Sistema Nervoso Central (SNC).

Vanessa conta que “com certeza a parte mais difícil foi quando a Sarah perdeu a audição total, em novembro de 2015, e quando teve endocardite fúngica, em março de 2016. Foi uma situação muito grave: ela ficou em tratamento hospitalar por 90 dias. Isso gerou muito estresse para gente, cansamos de ficar tanto tempo dentro do hospital. ”

Pacientes considerados de alto risco no momento do diagnóstico, ou aqueles que têm doença residual mínima (DRM) positiva no final da indução e na 12ª semana do tratamento (na fase de consolidação), geralmente, são indicados para realizar o transplante de medula óssea (TMO).

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Leucemia infantil tem cura

Conforme falado anteriormente, 90% dos pacientes alcançam a remissão completa quando realizam o tratamento adequado. O principal motivo para essa alta taxa é a sensibilidade que os jovens têm em relação ao tratamento.

Outra explicação, é que pessoas entre 15 e 29 anos demoram mais para eliminar as drogas do corpo. Dessa forma, há uma maior quantidade de quimioterápico no sangue. Por um lado, essa maior toxicidade gera uma maior “potência” para destruir as células cancerosas. Por outro, também pode trazer mais efeitos colaterais. Por isso, é preciso sempre estar atento e avisar sobre qualquer sintoma para a equipe médica.

“Quando recebemos a confirmação da cura, foi simplesmente perfeito. Foi muita luta, muita oração e muito amor de todo mundo em volta de nós. A Sarah sempre foi querida por todos e eu acompanhei todo esse processo dela. Graças a Deus, ela está bem. Tem limitações, mas está bem”, diz Vanessa Valente.

Recentemente, a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) submeteu para a avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) o uso do Blinatomumabe no tratamento da LLA infantil. Esse medicamento aumenta a expectativa de vida dos pacientes, além de ampliar as chances de sucesso no TMO e apresentar menor toxicidade.


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Natália Mancini

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