CAR-T no combate ao linfoma

Estudos mostram que 30% dos pacientes permanecem em resposta completa após 5 anos de tratamento
A ciência está em constante evolução e a terapia celular CAR-T chegou para mudar a forma como se trata alguns tipos de câncer, entre eles subtipos específicos de linfomas.
Esta tecnologia utiliza as próprias células de defesa do paciente para reconhecer e atacar as células cancerosas, como acontece na imunoterapia. A estratégia tem ganhado espaço no tratamento onco-hematológico, especialmente em situações de doença recidivada ou refratária.
Como acontece o CAR-T
O tratamento começa pela coleta dos linfócitos T do paciente (células de defesa), por meio de um procedimento chamado leucoaférese. Essas células são encaminhadas para um laboratório, onde são geneticamente modificadas. Após a modificação, as células CAR-T são reinfundidas no paciente. Uma vez no organismo, elas conseguem reconhecer as células que apresentam o alvo específico (cancerosas) e desencadear uma resposta imunológica que contribui para sua eliminação.

Quando o CAR-T é indicado nos linfomas?
Como vimos, hoje o tratamento está aprovado para o linfoma difuso de grandes células B e as indicações são para aqueles pacientes que não respondem ao primeiro tratamento (refratários) ou respondem, mas a doença volta com menos de um ano (recidiva precoce).
“Além disso, também é indicado para os pacientes que não responderam ao segundo tratamento ou que a doença voltou após o segundo ou mais tratamentos. Nesse último caso, estão incluídos também outros tipos de linfoma de alto grau, como o linfoma primário de mediastino, linfoma folicular transformado e linfoma folicular, mesmo sem transformação”, explica a Dra. Luciana Conti, onco-hematologista do Hospital São Lucas Copacabana da Rede Américas.
Há também aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do CAR-T para linfoma do manto desde 2023, mas a precificação pela CMED aconteceu somente em junho de 2026.
“Nesse caso, a indicação é para o linfoma do manto com falha a tratamentos prévios, incluindo inibidor de BTK, que é uma classe de medicamento oral”, pontua a Dra. Luciana.
Quais são as taxas de cura do CAR-T nos linfomas?
De acordo com a Dra. Luciana, a resposta para esta pergunta não é tão simples. Ela depende de algumas variáveis como, por exemplo, o momento do tratamento e o comportamento do linfoma – se o paciente é primariamente refratário, recidivado de forma precoce ou se apresentou recidivas após duas ou mais linhas de tratamento prévio.
“Contudo, estudo que avaliou pacientes com mais tratamentos prévios apresentou taxa de resposta completa de 58%, e 30% permaneciam em resposta completa após 5 anos de acompanhamento. Nos casos em que o CAR-T foi usado mais precocemente, os resultados foram melhores, com resposta completa de 65% versus 32%, quando comparado ao tratamento padrão sem CAR-T. Em dezembro de 2025 foi publicado um trabalho especificamente tentando estimar a taxa de cura nesses casos mais precoces, e esse cálculo chegou a 50-54%. Entretanto, esse dado deve ser interpretado com cautela porque se trata de estimativa e não acompanhamento dos pacientes do estudo”, diz a médica onco-hematologista.
Efeitos colaterais da terapia com células CAR-T
É muito importante saber reconhecer os efeitos adversos, para avisar o quanto antes, e com detalhes, o médico especialista. O acompanhamento com uma equipe multiprofissional devidamente capacitada para este tratamento também é crucial para o manejo destas reações. As principais são:
- Síndrome de liberação de citocinas – É uma das complicações mais frequentes após a infusão das células CAR-T. Ocorre quando há uma ativação intensa do sistema imunológico, levando à liberação de grandes quantidades de citocinas, moléculas envolvidas na resposta inflamatória. Pode causar febre, queda da pressão arterial, aumento da frequência cardíaca e dificuldade para respirar. Nos casos mais graves, pode haver comprometimento de órgãos. A intensidade varia e o paciente deve ser monitorado de perto após a infusão.
- Toxidade neurológica – Pode ocorrer após o tratamento e os sintomas incluem dificuldade para encontrar palavras, alteração da atenção, confusão mental, sonolência, tremores e dificuldade para escrever ou se comunicar.
- Infecção – A terapia CAR-T pode provocar alterações importantes no sistema imunológico, aumentando a vulnerabilidade para as infecções. A ocorrência pode estar relacionada tanto à própria doença quanto aos tratamentos realizados antes e depois da infusão. Podem ocorrer infecções bacterianas, virais ou fúngicas.
Futuro do CAR-T: o que esperar para os próximos anos?
Inúmeras pesquisas estão sendo desenvolvidas, com o objetivo de ampliar as possibilidades de tratamento por meio do CAR-T, não só para os linfomas, mas também outros tipos de câncer.
“Eu vejo como algumas perspectivas futuras, como a utilização cada vez mais precoce no tratamento, a indicação em outros subtipos de linfoma, como o linfoma de zona marginal e o uso de dois ou mais alvos no CAR-T, na tentativa de evitar o escape”, comenta a Dra. Luciana Conti.
Além disso, pensando no acesso também para os pacientes do SUS, os estudos estão cada vez mais avançados e apresentam resultados animadores. Uma última pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde mostrou que mais de 87% dos pacientes com LNH tiveram excelentes resultados a partir do CAR-T nacional.


