Brasil é o maior transplantador do mundo, mas há importantes desafios no acesso

Por Isadora Cupertino de Lima – Políticas Públicas e Advocacy da Abrale
O Brasil ocupa a posição de segundo maior transplantador do mundo em números absolutos. Responsável pelo maior sistema público de transplantes, o país construiu, ao longo das últimas décadas, uma estrutura singular de acesso universal. Diferentemente da realidade observada em outros países, o Sistema Único de Saúde (SUS) realiza aproximadamente 90% dos transplantes, como também coordena, regula e organiza toda a rede assistencial necessária para sua realização, desde a identificação dos pacientes e doadores até o acompanhamento pós-transplante.
Essa característica torna o modelo brasileiro único. Por meio do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), o Ministério da Saúde coordena uma complexa rede composta por centrais estaduais de transplantes, hospitais habilitados, laboratórios especializados, bancos de tecidos e células, além de registros nacionais que viabilizam a identificação de doadores e receptores em todo o território nacional. Mais de 85% dos transplantes realizados no país são financiados pelo SUS, consolidando a política de transplantes como uma das mais relevantes experiências de universalização do acesso à saúde no mundo.
O transplante de medula óssea (TMO) é uma das modalidades, além de terapia essencial para o tratamento de diversas doenças hematológicas, incluindo leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes de falência medular e imunodeficiências. Em muitos desses casos, o TMO representa a principal e, por vezes, a única alternativa terapêutica com potencial curativo, oferecendo aos pacientes a possibilidade de remissão duradoura, aumento significativo da sobrevida e melhora substancial da qualidade de vida.
Um levantamento realizado pelo Observatório de Oncologia apontou que, entre 2015 e 2023, foram realizados 11.997 TMO no país, consolidando o sistema público como responsável por aproximadamente 80% desses procedimentos. Dados apresentados durante a Audiência Pública sobre Transplante de Medula Óssea, realizada no dia 13 de maio, na Câmara dos Deputados, em Brasília, apontam que em 2025, foram realizados cerca de 4 mil transplantes de medula óssea no Brasil.
O Brasil conta com centros de excelência reconhecidos internacionalmente, além de possuir o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME), o maior banco público de doadores de medula óssea do planeta, com mais de cinco milhões de doadores cadastrados.
Mas, apesar desses avanços, os dados também revelam desafios relacionados ao acesso. Em 2023, aproximadamente 39% dos transplantes de medula óssea concentraram-se no estado de São Paulo, evidenciando desigualdades regionais na oferta do procedimento. E esta é uma das principais barreiras para a equidade no acesso, pois obriga pacientes e familiares a percorrer longas distâncias em busca de tratamento.
Os desafios estruturais também limitam o acesso ao transplante, como a insuficiência de centros transplantadores em determinadas regiões do país e a existência de longas filas para transplantes autólogos. Outro desafio relevante refere-se à capacidade dos serviços.
Diante desse cenário, a Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale), a Associação de Medula Óssea (Ameo), a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e a Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) vêm atuando de forma conjunta e articulada para ampliar a visibilidade do tema e contribuir para a construção de soluções estruturantes para o país.
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Nos últimos dois anos, as entidades constituíram um grupo de trabalho voltado à análise do cenário nacional do transplante de medula óssea. A iniciativa reuniu representantes da sociedade civil, especialistas e lideranças médicas para realizar um diagnóstico abrangente da situação do TMO no Brasil, identificar gargalos assistenciais e formular propostas concretas para o fortalecimento da política pública.
Esse trabalho resultou na elaboração de documentos técnicos encaminhados ao Ministério da Saúde, além da realização de reuniões com o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), o Departamento de Atenção Especializada e Temática (DAET) e o Departamento de Atenção Especializada e Temática do Câncer (DECAN), assim como uma audiência pública que foi realizada no dia 13 de Maio na Comissão Especial de Combate ao Câncer na Câmara dos Deputados
Como resultado desse processo de articulação institucional, as entidades passaram a defender a construção de uma agenda estruturante para o fortalecimento do TMO no SUS. Entre as principais propostas apresentadas está a criação de um Grupo de Trabalho interinstitucional, com participação do Ministério da Saúde, do Congresso Nacional, de entidades científicas e de organizações da sociedade civil.
As discussões realizadas ao longo dos últimos meses evidenciam que o TMO não deve ser compreendido apenas como um procedimento de alta complexidade, mas como uma política estruturante para a oncologia e a hematologia brasileira. Além do impacto clínico, o procedimento apresenta importante potencial de retorno social e econômico, ao possibilitar que pacientes retornem às suas atividades produtivas e reduzam a necessidade de tratamentos contínuos e prolongados.


