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Ricardo Medeiros, paciente de linfoma de Hodgkin, completa 20 anos de TMO

Paciente de linfoma de Hodgkin
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Última atualização em 25 de maio de 2023

O transplante de medula óssea (TMO) foi um renascimento e trouxe um novo significado em sua vida

Escrito por: Natália Mancini

Atualmente, Ricardo Medeiros tem 46 anos, é vendedor e está curado desde 2003. Mas até chegar nesse marco, o paciente de linfoma de Hodgkin passou por muitos obstáculos e superou inúmeras dificuldades. Os desafios já começaram na época do diagnóstico, que levou um bom tempo para ser fechado.

Desde criança, Ricardo era muito ativo, brincava o dia inteiro na rua, corria e jogava futebol com os amigos por horas seguidas. Ficou tão habilidoso com a bola que, aos 12 anos, entrou na equipe local e passou a jogar nos campeonatos representando seu município – ele morava em Braços do Norte, que fica a  170 km de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina.

“Eu sempre disputei competições em nível mais alto, seja em campeonatos amadores ou estaduais. Então, eu tinha uma vitalidade muito grande, de um adolescente saudável”, Ricardo relembra.

Mas, quando estava com 19 anos, quase completando 20, ele percebeu que algo estava diferente. Um cansaço e uma fadiga extrema apareciam durante e, principalmente, no dia seguinte aos jogos. 

Todos esses sintomas acenderam um alerta na sua cabeça e ele decidiu procurar um médico, que solicitou alguns exames. O profissional verificou que realmente havia algo acontecendo, pois seus hematócritos estavam baixos, mas era pouca coisa, não parecia ser algo assustador, só indicava o início de uma anemia.

“Eu fiquei internado por quatro ou cinco dias para fazer uma reposição de vitaminas. Além disso, eu trabalhava muito e era muito ansioso e responsável, cuidava de um negócio próprio e isso me deu uma sobrecarga. Então o médico disse que também poderia ser o começo de uma crise de ansiedade”, ele relata.

O processo até o diagnóstico

Após o tratamento para anemia, Ricardo voltou a se sentir normal. Mas, depois de um tempo, a fadiga retornou e outros sintomas apareceram. 

“Eu comecei a sentir muitas dores bem no meio das costas, eram dores horríveis. Parecia que eu tinha um punhal cravado nas costas o tempo todo e a fadiga foi aumentando.”

Ricardo Medeiros, paciente de linfoma de hodgkin
Foto de arquivo pessoal

Ele voltou ao médico, refez os exames e, para a sua surpresa, seus hematócritos estavam ainda mais baixos. Era hora de ir a um especialista e Ricardo buscou o Dr. Marco Antonio Rotolo, referência na Hematologia.

O Dr. Rotolo pediu para repetir o hemograma e fazer uma tomografia, que comprovaram a presença da anemia e ainda indicaram um aumento discreto nos linfonodos do mediastino. “Mas nada que fosse preocupante em um primeiro momento”, Ricardo diz. 

Mesmo assim, em janeiro de 2001, o Dr. Rotolo orientou que Ricardo fizesse uma biópsia para retirar e avaliar esses linfonodos, pois, apesar do aumento ser discreto, eles deixaram o médico desconfiado. Ele indicou que o paciente realizasse o procedimento em Florianópolis, porém ele decidiu ir até Curitiba para fazer.

Nada apareceu na biópsia.

“Eu entrei em uma fase de negação total para qualquer coisa. Sofri muito e abandonei completamente qualquer investigação”, ele lembra.

Até que o diagnóstico de linfoma de Hodgkin veio

Ricardo podia ter desistido, mas a doença ainda estava lá e estava fazendo sua saúde ficar cada vez pior.

“Eu fui definhando, piorando, emagrecendo, tendo dores, anemia, fraqueza e já não podia mais fazer exercício físico.”

Até que, em outubro de 2001, ele passou muito mal em casa e foi levado às pressas para o hospital. Para ele, aquilo foi um sinal que precisava se cuidar, um chamado de Deus para voltar a olhar para sua saúde.

Paciente de linfoma fazendo esporte
Ricardo, fileira de baixo, segunda pessoa da direita para esquerda, jogando futebol. Foto de arquivo pessoal

“Eu procurei o Dr. Marco novamente, pedi desculpas pela revolta e refizemos todos os exames”, explica Ricardo. Uma nova biópsia foi pedida, mas agora dos linfonodos aumentados no pescoço.

Dessa vez, foi detectado que ele estava com linfoma de Hodgkin (LH).

“Eu tive uma reação absolutamente humana. É inexplicável, só quem passa por isso sabe. Você perde totalmente o chão, fica sem rumo. Eu tive incredulidade, revolta e negação”, descreve.

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Era o início da jornada como paciente de linfoma de Hodgkin

Toda quarta-feira, Ricardo saía cedinho de Braços do Norte para chegar ao centro de tratamento, em Florianópolis. Às 8h começava a quimioterapia, que só acabava perto das 13h. Ao todo, foram 12 sessões de quimio. 

Além disso, o Dr. Rotolo também prescreveu como tratamento para o linfoma 30 sessões de radioterapia, mas, para isso, Ricardo teria que ir para Curitiba. O deslocamento era necessário porque o aparelho de radioterapia de Florianópolis não estava funcionando corretamente. As 30 sessões foram feitas de forma diária, ou seja, uma por dia, de segunda à sexta-feira.

Paciente de linfoma fazendo o TMO
Ricardo assinando o termo de responsabilidade do TMO ao lado do Dr. José Antônio Calza. Foto de arquivo pessoal. Foto de arquivo pessoal

“Só que quando chegou na 15ª sessão, eu tive uma reação muito forte à radio. Fiquei com queimaduras em toda parte do pescoço, nas axilas, no tórax, tive mucosite na boca, garganta e esôfago. Então, o Dr. Marco decidiu suspender o tratamento”, Ricardo diz.  

Ele relata que, durante esse período, se apegou muito a Deus e à sua família.

“Quando você inicia o tratamento, vai amadurecendo, entendendo melhor e vem a fase da aceitação. Eu sempre tive muita fé, me apeguei muito em Deus, minha família foi fundamental, meus amigos. Até chegar na fase de aceitação foi muito difícil, mas aceitei e aí foi foco total, muita determinação, vontade de vencer. O processo mudou completamente.”

Em abril de 2002, Ricardo refez todos os exames e foi constatado que não havia mais sinal do câncer, ele havia entrado em remissão!

Recidiva e TMO

De abril a outubro/novembro de 2002, Ricardo levou uma vida normal – fazendo acompanhamento com o médico, claro. Até que voltou a sentir a dor e a fadiga de antes, realizou uma nova biópsia, agora na região do abdômen, e foi diagnosticada a recidiva do linfoma de Hodgkin.  

“Eu tinha me curado e a doença voltou e aí tive muitos questionamentos e revolta, novamente”. Mas, dessa vez, ele tinha um motivo a mais para lutar: “Eu tinha uma filha pequena, a Maria Eduarda, e ela foi sempre a grande razão da minha luta.”

Transplante de medula óssea para tratamento de linfoma
Ricardo internado para realizar o TMO. Foto de arquivo pessoal

Nesse momento, o Dr. Rotolo reavaliou o caso e entendeu que realizar o transplante de medula óssea autólogo era o único, e melhor, caminho.

“Eu nem imaginava o que era o transplante. Fui pesquisar, me informar e o Dr. Marco também tirou todas as minhas dúvidas”, conta Ricardo.

Em 7 de fevereiro de 2003 ele foi internado para realizar o primeiro ciclo de quimioterapia como preparação para o TMO.

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O pós TMO foi o período mais difícil

“Eu quero fazer um registro. Deus é maravilhoso, porque um dia antes do  transplante, eu estava destruído, achei que nem conseguiria fazer o procedimento. Mas, no dia da infusão, eu parecia uma pessoa normal, estava super bem, me alimentei, estava numa vibe muito boa, good vibe. Foi um dia muito especial”, Ricardo afirma.

Mas, claro, em alguns momentos o pós-TMO também foi bastante complicado. E quando a tristeza batia, ele olhava para um porta-retrato que ficava ao lado da sua cama com uma foto de sua filha. 

Transplante de medula óssea autólogo
Ricardo recebendo o transplante de medula. Foto de arquivo pessoal

“Eu olhava para ela e sabia que eu tinha que lutar, eu tinha um motivo maior, era o que me dava força para continuar a caminhada.”

A alta

15 dias se passaram e Ricardo ainda não reagia, já era para ele ter tido a pega da medula e os exames de sangue melhorarem, mas nada tinha acontecido.

“Foi o primeiro momento de tudo isso que eu realmente fiquei com medo de perder a vida”, confessa.

Mesmo assim, ele não aguentava mais ficar no hospital. Então, em uma terça-feira, quando o Dr. Rotolo passou no quarto, Ricardo afirmou que não podia mais ficar ali e precisava voltar para casa. Porém, o médico disse que não tinha condições de dar alta.

No dia seguinte, o doutor passou novamente no quarto e fez um acordo com ele. Pegou o resultado do hemograma, anotou alguns números e falou que se, no domingo, o nível das células chegasse até aquela quantidade, o paciente poderia ir para casa.

Tratamento de linfoma de hodgkin
Ricardo, à esquerda, com Alexandre, amigo que também estava em tratamento, após o TMO. Foto de arquivo pessoal

“No sábado eu ainda me sentia muito mal, mas eu tinha certeza que eu ia embora no domingo, tanto que eu liguei para o meu pai para ir me buscar no dia seguinte. Na época, o celular era pouco usado então, naquela euforia, meu pai nem ligou para o médico para confirmar a alta e, domingo de manhã, estava lá para me buscar.”

Era domingo, 6h da manhã e Ricardo fez a coleta dos exames de sangue. Quando o resultado saiu às 10h, todos ficaram surpresos: as células haviam chegado ao nível que o doutor tinha colocado como meta. Mas, como todos estavam incrédulos, o teste foi repetido. 

“Às 16h ele me deu alta, eu fui embora”, Ricardo relembra. Botar os pés em casa foi um momento muito especial. Estar ali o transformou.

“Eu não consigo explicar a emoção e a força que eu senti estando dentro da minha casa, com a minha esposa, com meu pai, minha mãe, minha irmã, meu sobrinho e, principalmente, minha filha. Foi algo inexplicável. No outro dia, eu era outra pessoa. Dali para frente, claro que com todos os cuidados, a recuperação foi fantástica, todo dia eu estava muito melhor.”

A vida como ex-paciente de linfoma de Hodgkin

Durante os cinco primeiros anos após a remissão, ele fazia o acompanhamento médico a cada seis meses, e do 5º ao 10º ano o acompanhamento era anual. Após o 10º ano, a orientação era manter um retorno anual. E nunca mais uma recidiva aconteceu.

No ano de 2023, Ricardo completa 20 anos do seu TMO e diz que o significado do procedimento não pode ser outro a não ser: renascimento.

Vida após o linfoma de hodgkin
Da esquerda para direita: Maria Eduarda, filha, Ricardo e Vanusa, esposa

“Mas um renascimento que ressignificou a minha vida, porque eu me transformei em um ser humano muito melhor nesse processo. Então, são 20 anos que, muitas vezes, parece um filme, não parece que foi comigo que aconteceu. Eu entendi o verdadeiro significado da palavra gratidão, que é benção, dádiva. O TMO é um episódio muito importante na minha vida, sofrido sim, muito sofrido, mas também que me trouxe muitas lições e coisas boas”, Ricardo Medeiros finaliza.


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Quero agradecer imensamente pelo carinho que a Abrale sempre desprendeu a mim, assim como é com todos os pacientes que recorrem sua ajuda. E que a minha história, através do meu depoimento, possa encorajar, fortalecer e alimentar a esperança de milhares de pessoas que enfrentam qualquer tipo de câncer. Na certeza e alicerçados na Fé, que é possível vencer e que Deus estará sempre conosco nos guiando e protegendo durante a caminhada.

Forte abraço!

Que história inspiradora, obrigada por compartilhar, lê -la traz um sorriso e ascende a esperança de um futuro. Fiz TMO em fevereiro desse ano, foi realmente muito difícil, mas estou bem na minha casa com minha família. Gratidão a Deus.

Olá Ricardo obg por compartilhar sua história com a gente,pois estou nessa msm situação,minha filha tem linfoma de hodking e está fazendo as químios pre tmo e estamos ansiosas .. pois é um processo muito doloroso pra todos ! E as vezes nos sentimos muito tristes ! E ler sua história nos dá uma força muito grande. Deus abençoe!!

Muito obrigada pelo incrível relato! Meu pai vem travando uma grande batalha contra o linfoma T e agora com a remissão vai conseguir realizar o TMO autologo. Somos da Bahia mas iremos pra Recife realizar o procedimento no mês que vem. Já estou muito ansiosa e nervosa com tudo isso, mas com muita fé que dará tudo certo! Esses depoimentos aquecem meu coração.

Olá Ricardo, sua história vou contar para meu sobrinho 20 anos tb com LH desde de 2021 para ver se ele saí dessa fase de revolta e negação que vc falou ele esta difícil passa mal mais ñ quer volta para o tratamento. Sua história quero muito que ele volte a gostar da vida .

Olá Ricardo muito obrigado pelas palavras de encorajamento pois nesse momento estou internada para fazer o transplante autólogo de medula após recisiva de Linfoma de Holdking

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