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O golaço de Caio Ribeiro, que venceu um linfoma

Caio Ribeiro Linfoma
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O ex-jogador de futebol e comentarista caio ribeiro conta como enfrentou e venceu um linfoma de Hodgkin

Jogador de futebol de sucesso, com carreira internacional, ídolo do São Paulo Futebol Clube. Caio Ribeiro deixou os gramados com 30 anos e hoje é comentarista da Rede Globo e do SporTV. O seu jeito simpático, sempre sorridente, cativou a audiência e rapidamente o ex-atleta ganhou uma legião de fãs. Seus comentários foram parar até em videogame, um sucesso entre a garotada.

Recentemente, veio o susto: Caio sumira da telinha, não comentava mais os jogos. Havia um certo silêncio em torno do seu nome. Então veio a notícia: Caio Ribeiro está com câncer. E se afastou do trabalho para cuidar da doença.

Hoje, em remissão, o apresentador Caio Ribeiro, com exclusividade à Revista ABRALE, abre seu coração, fala sobre o diagnóstico e dá detalhes sobre o seu tratamento: “Primeiro, você chora. Depois, você olha para os seus filhos e fala: ‘Tenho muita coisa para viver com eles. Não é minha hora ainda. Quero vê-los crescer’”.

Como soube do linfoma de Hodgkin? 

Não tive nenhum sintoma. Tudo começou numa sessão de fisioterapia. Eu continuo jogando bola até hoje e, como estou mais pesado e sem treinar todo dia, meu joelho vinha me dando um pouco de trabalho. Faço fisioterapia preventiva, alongando e fortalecendo o corpo, para evitar que o joelho estoure. E o Cadu Ramos, com quem sempre me tratei, juntamente com o Fábio Sperling, falou que queria dar uma alongada nas costas, no pescoço, porque estava me achando muito tenso. 

Caio Ribeiro Falando Sobre Linfoma

Aí, ele tocou meu pescoço e falou: ‘Você está com um carocinho aqui… já tinha percebido?’ E eu respondi: ‘Não, não tinha’. 

Falei com o meu pai que é patologista clínico. Ele me disse: ‘Filho, você vai amanhã para o hospital’. Olhei para ele meio preocupado: ‘É alguma coisa grave, pai?’ Ele falou: ‘Quando a gente toca ou olha, na hora sabemos se é muscular ou se é picada de inseto. Quando não se sabe o que é, tem que dar uma checada. E eu não sei o que é. Então quero que ligue para uns amigos da Rede D’Or, e vá fazer uns exames. Precisamos dar uma olhada nisso. Eu vou com você’.

Que exames teve de fazer até o diagnóstico de linfoma?

Em dois dias, fiz um ultrassom, um raio X e fui me consultar com um oncologista especialista em pescoço e cabeça. Ouvi dele: ‘Está com cara de câncer’. Tomei um susto e falei: ‘Não é possível. Eu treino, me cuido, faço atividade física todos os dias, não uso drogas, nunca fumei, nem bebi, não tenho histórico na família de câncer, não é possível’. Ele pediu para que fosse ao laboratório fazer uma punção.

Eu fiz umas 14 punções e coletei o material. Com o resultado, foi diagnosticado que era um linfoma de Hodgkin, que era câncer, e fui fazer uma tomografia do tipo Pet Scan.

Como reagiu?

Eu me lembro como se fosse hoje o que a médica disse: ‘Tenho uma notícia boa e uma notícia ótima’. 

‘Não tem notícia ruim?’, perguntei. 

‘Não, a boa é que é Hodgkin, com 98% de chance de cura. Dos tipos de linfoma é o menos agressivo e o mais curável’. 

‘E a maravilhosa?’. ‘É que a gente descobriu na fase um, o câncer não está em nenhum lugar do corpo, só no seu pescoço. E isso facilita demais o tratamento do linfoma’.

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E como foi a partir daí?

Sempre fui um cara otimista, sempre olhei a vida com otimismo, para cima, achando que as coisas têm que dar certo. Nunca fui esse cara de ficar se lamentando, de ficar dando notícia ruim. 

Fui procurar alguns médicos, meu pai me ajudou. Cheguei até o Dr. Otavio Baiocchi, do Hospital Oswaldo Cruz. Além de toda a referência técnica, teve uma coisa que ele falou que pesou na minha decisão.

Quando eu descobri a doença e fiz todos os exames, tinha saído de férias, tirado 20 dias na Globo. E eu tinha que fazer o Caioba Soccer Camp (um acampamento esportivo para crianças). Já havia quase dois anos sem promover o evento, por causa da pandemia. E, logo em seguida, teriam os Jogos Olímpicos (de Tóquio, que aconteceram em 2021).

Comentarista Caio Ribeiro Com Filho

Eu voltaria do Caioba num domingo às duas da tarde e, às seis da tarde, entraria em um avião para o Rio de Janeiro para participar da cobertura das Olimpíadas.

Então, o Dr. Otavio falou para mim: ‘Caio, é importante pra você?’ Eu falei: ‘É’. ‘Qual dos dois?’ Eu falei: ‘Os dois’.

No Caioba, tem a questão financeira, mas tem a troca de energia com as crianças. E as Olimpíadas também eram importantes, pela questão profissional. E ele disse: ‘Tão importante quanto o tratamento é a sua cabeça. Se é importante para você ir, vai. Preciso só fazer uma biópsia antes, para ter certeza, e, quando você voltar, daqui a um mês, a gente começa o tratamento’. Eu fui e voltei com a certeza de que ia dar certo.

Como foi o seu tratamento para linfoma?

Comecei a quimioterapia. Foram dois meses, quatro sessões, de 15 em 15 dias. Depois, fiz a radioterapia

Já fiz tudo, repeti o Pet Scan, não tenho mais nada. Graças a Deus. E estou voltando ao normal, cabelo crescendo, feliz. E nada me deixou tão emocionado quanto essa onda de apoio e amor que recebi. Porque é uma porrada. Na hora que você recebe a notícia, sua esposa começa a chorar, sua mãe começa a chorar, as pessoas ligam para você e começam a chorar. Em um primeiro momento, você também chora. E tem que se permitir mesmo, colocar para fora. 

Apresentador Caio Ribeiro Com Família

Depois, você olha para os seus filhos e fala: ‘Tenho muita coisa para viver com eles. Não é minha hora ainda. Quero vê-los crescer. Quero ver meu filho jogar bola, ver minha filha pular pela casa. Quero ir na apresentação do colégio dela. Esse era o meu combustível. É por eles. Não vou me entregar’.

Quando decidiu comunicar publicamente que tinha a doença?

Em um primeiro momento, eu falei: ‘Cara, não quero dar essa notícia ruim para as pessoas, a não ser para as pessoas muito próximas, minha família e pouquíssimos amigos, porque não queria preocupá-los’. 

Então, perguntei ao médico: ‘Doutor, tem alguma chance de o meu cabelo cair? É porque, se cair, vou ter que falar da doença’. 

Ele falou: ‘Como a gente descobriu muito no começo, acho que não vai cair. Mas não tem como prever.’

Caiu, né?

Sim. Eu consegui levar até metade do tratamento sem falar para ninguém. Aí, o cabelo começou a cair. Foi quando procurei a Globo. 

Sou muito grato à TV Globo pela forma como conduziu as coisas. Primeiro me perguntaram: ‘Você está bem?’. Falei: ‘Sim, tô’.

‘Você quer parar, tratar-se e depois voltar?’. Falei que não: ‘Continuar trabalhando faz bem para minha cabeça. É a hora que me ocupo, que lido melhor com as dores, com os enjoos. Está me ajudando no tratamento’. 

‘Então, você vai continuar. Só que precisamos que você trabalhe de casa, até pela sua imunidade e pela imagem da TV Globo de mostrar para as pessoas que estamos fazendo o que é certo’. 

E eu falei: ‘Sem problema nenhum’. 

‘Como você quer comunicar para o público? Quer usar um programa, quer usar suas redes sociais?’

Seus filhos já sabiam?

Não, a Valentina, minha filha, tem seis anos, e o João, 11. Desde o começo, sabia que tinha que me preocupar mais com o João, já que a baixinha não ia entender direito. E eu não contei antes por causa dele. O João já está numa fase que é muito sensível. Ele é grudado em mim. Eu que levo para o treino, para o jogo. Então, eu sabia que ele ia sentir muito o impacto da notícia. Escolhi uma sexta-feira à noite e combinei com a Globo: ‘Vou dar a notícia nas minhas redes sociais’.

Por que sexta-feira?

Era uma véspera de feriado, eu teria quatro dias para ficar com meu filho. Segunda e terça ele não teria aula. Seria bom estar por perto quando ele recebesse as mensagens dos amiguinhos…

Além disso, não teria programas de fofoca nos dias seguintes. Diminuiria um pouco o impacto da notícia.

Claro que iriam falar, por internet e redes sociais, mas não tanto na TV. E a Globo iria replicar o vídeo no site globoesporte.com. Eles também queriam que eu falasse com o Jornalismo da emissora: ‘Quer falar no Globo Esporte?’ 

Acabei concedendo uma entrevista legal para o Felipe Andreoli. Foi a primeira vez que tratei da doença em público. No domingo, tinha partida entre Brasil e Argentina, e também conversei sobre o assunto na transmissão com o Galvão Bueno. Eles foram supercarinhosos.

Como foi a reação do público?

Eu sabia que as pessoas iam se sensibilizar, mas não imaginei que fosse receber tanto carinho. Sou muito grato pela onda de amor que recebi, desde o momento que anunciei o tratamento até hoje. As pessoas continuam enviando mensagens, abraçam quando me encontram. O meu vídeo teve dois milhões de visualizações. Teve gente que falou que vinha me usando de exemplo para mostrar como é importante lutar e vencer a doença. Tornar a coisa pública faz você servir de modelo. Eu superei, preciso mostrar isso.

Caio Ribeiro Está Com Câncer
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O que mudou na sua vida depois do câncer?

Sempre fui muito emotivo. manteiga derretida. Depois do câncer, fiquei ainda mais sensível. Se ficar falando muito, começo a chorar agora (sorri, com olhos marejados). E, de verdade, o carinho das pessoas me deixou mais emocionado.

A reação do meu filho, a forma como tentei protegê-lo, também me deixou mais emotivo…

E a gente tem um projeto, que é o Caioba Soccer Camping. Não é um projeto social, ainda que promova ações sociais. Já levamos meninos com autismo, com síndrome de Down. A seleção brasileira de síndrome de Down já esteve conosco. Sempre tive um sonho, realizar um evento 100% social, para a comunidade, crianças de favela, crianças que jamais poderiam estar ali, pagando um fim de semana, principalmente o hotel, que é caro. Este ano, tivemos 300 crianças, 1.100 pessoas envolvidas, hotel fechado para o evento, crianças em lista de espera, pessoas querendo abraçar, estar perto. Então decidimos retribuir. Vamos retribuir.

 O que fizeram?

Um evento menor, que não estava planejado, para 160 crianças, das quais 60 eram de favela. Saí com o coração transbordando de alegria. 

São crianças educadíssimas. Teve um menino que, no fim do treino, perguntou: ‘Onde eu deixo a chuteira’. E a gente fala: ‘É presente! Tudo o que está aqui é para você. Uniforme de treino, de jogo, os bonés, a camisa, a bermuda, a chuteira, a bola… tudo é presente’. 

‘Poxa, nunca tive uma chuteira’. Aí você pensa: ‘Cara, quantas chuteiras o meu filho tem, por que não podemos tirar uma e dar para eles?’ 

O evento tem comida e bebida liberados. Mas um menino ficou olhando e uma mãe percebeu. Convidou o menino para comer. E ele: ‘Não posso pagar’. ‘Mas tudo o que está aqui é para vocês’. Aí ele falou: ‘Posso pegar o que eu quiser?’ E ela: ‘Pode’. ‘Nunca viajei na minha vida, primeira vez que saio de casa… foi o melhor fim de semana da minha vida’.

Então, cara, a gente tem que fazer mais vezes

isso. Um dia a gente quer fazer com 300 crianças sociais.

As crianças têm um encantamento especial pelo futebol, né?

Sim, sempre que posso, ajudo as crianças com câncer. Não para parecer legal, mas porque quero ajudar mesmo, é espontâneo, porque o universo devolve em dobro. Já levei crianças no Corinthians, no São Paulo, no Palmeiras. A gente realiza sonhos. 

Uma vez falei com o Tite e o Edu do Corinthians: ‘Tenho dez crianças, posso levá-los no treino?’ É uma operação complexa, tem que ter ambulância, acompanhante, às vezes, cadeira de rodas e assim por diante. Curiosamente, soube que minha mãe faz parte do conselho do Hospital Infantil Darcy Vargas. Nada a ver com meu tratamento Ela faz isso há dez anos e eu descobri faz quatro meses. Talvez até isso tenha me ajudado a lidar com as coisas.

Que mensagem deixaria para aqueles que precisa enfrentar o câncer?

O impacto da notícia machuca. Se permita chorar, pedir ajuda. Falar com quem tem de falar. É um tratamento que tem começo, meio e fim. Não é fácil no meio do caminho, tem os enjoos, as dores, a questão da imunidade, tem que ficar mais quietinho. Mas vale a pena acreditar na cura, não se entregar nunca. 

Levante a cabeça e enfrente. Se apoie em quem gosta de você. Fiz uma ação para Pfizer, com um slogan verdadeiro. O momento do diagnóstico é a sua primeira vitória. Quanto mais cedo você descobre, maior é a chance de cura. Daí a importância dos exames de prevenção. Procure ajuda médica, faça um exame cardiológico, procure um especialista.

E, diante de um diagnóstico, deixe na mão deles, a medicina faz a parte dela. E a gente tem de fazer a nossa. No caminho, haverá dias mais fáceis e outros mais difíceis. Nos mais fáceis você vai lidar bem; nos difíceis peça apoio. 

Caio Ribeiro Comemorando Cura Do Linfoma

Encare de frente, de cabeça erguida. Tem muita gente passando pela mesma coisa e não fala. Conte sua história, isso pode lhe ajudar e ajudar as pessoas que estão à sua volta.

Escrito por Giuliano Agmont


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8 Comentários
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Parabéns pela força e determinaçao…estou tbm no final do tratamento do meu filho de 15 anos…ele fez alto transplante…deu td certo…amanhã possivelmente terá alta….parabéns guerreiros…Arthur passou um ano fazendo quimio porque linfoma voltou depois do quarto ciclo…..gratidão.

Olá, Denise, como vai?

Muito obrigada por compartilhar a experiência do seu filho conosco e com os outros pacientes! Com certeza servirá de inspiração para muitos 💖
Nós temos uma matéria sobre o transplante autólogo, a senhora já viu? Caso queira lê-la basta clicar no link a seguir: Saiba tudo sobre o transplante de medula óssea autólogo

Já conhece o trabalho da Abrale? Nós somos uma ONG que auxilia pacientes com alguns cânceres hematológicos, como o linfoma, por meio de diversos serviços gratuitos! Estou encaminhando o seu contato para o nosso Apoio ao Paciente para que a gente possa estar mais próximos e consigamos te ajudar sempre que preciso! Dentro de alguns dias, a equipe do Apoio enviará uma mensagem para o endereço de e-mail que a senhora indicou quando fez o comentário!

Abraços!

Parabéns pela força que tem me passado, estou em tratamento descobri um linfoma.

Olá, Simone, como vai?

Juntos, e nos apoiando um no outro, somos mais forte! 💪
A senhora já conhece o trabalho da Abrale? Nós somos uma ONG que auxilia pacientes com alguns cânceres hematológicos, como o linfoma, por meio de diversos serviços gratuitos! Estou encaminhando o seu contato para o nosso Apoio ao Paciente para que a gente possa estar mais próximos e consigamos te ajudar sempre que preciso! Dentro de alguns dias, a equipe do Apoio enviará uma mensagem para o endereço de e-mail que a senhora indicou quando fez o comentário!

Abraços!

Parabéns pela coragem, no meu caso precisei ir até o TMO autólogo (também tive um linfoma de Hodgkin), não imagina o quanto isso me tornou uma pessoa melhor no dia-a-dia. Cada segundo que passa eu tento fazer a minha parte para um mundo melhor. O susto do diagnóstico é algo grande, mas a notícia da vitória se torna algo único na vida.Na minha época tive que passar 8 meses ininterruptos longe da minha única filha que na época tinha apenas 3 anos de idade. Cada suspiro que dei nesse período foi lutando por ela.

Olá, Thiago, como vai?

Muito obrigada por compartilhar o seu relato conosco e com os outros pacientes, com certeza sua força e coragem trarão bastante esperança 💖

O senhor já conhece o trabalho da Abrale? Nós somos uma ONG que auxilia pacientes com algumas doenças hematológicas, como o linfoma, por meio de diversos serviços gratuitos! Caso tenha interesse em conhecer mais sobre nós e queira estar mais próximo de nós para que possamos te ajudar no que você precisar, nossa equipe de Apoio ao Paciente está à disposição! Basta enviar uma mensagem para o nosso WhatsApp 11 3149-5190 (ou clique no link) para que possamos fazer o seu cadastro e te adicionar! Só pedimos para que, no primeiro momento, não envie áudio para que nosso sistema possa entender a sua demanda e encaminhar para o departamento correto. 💖

Abraços!

Muito boa essa matéria!

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Escrito por:

Revista Abrale

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