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O que esperar das primeiras terapias CAR-T Cell aprovadas no país?

Tratamento De Câncer Cart Cell
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De grande promessa à realidade para os pacientes onco-hematológicos brasileiros. Entenda como os tratamentos funcionam e quando podem ser indicados

Escrito por:

Natália Mancini

As primeiras terapias que utilizam a CAR-T Cell tiveram seu uso aprovado no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) neste ano. A primeira, autorizada em fevereiro, pode ser indicada para casos de leucemia linfoide aguda (LLA) e de linfoma difuso de grandes células B. Já a segunda, aprovada em março, tem recomendação para pacientes de mieloma múltiplo. Além disso, diversos estudos estão avaliando a aplicação da técnica para outros tipos de cânceres hematológicos e os cientistas estão otimistas que, em breve, novos tratamentos estarão disponíveis.

A terapia com as células CAR-T vem sendo estudada intensamente nos últimos anos, se tornou uma grande promessa para a Hematologia e, agora, faz parte da realidade para diversos pacientes. 

A primeira terapia gênica aprovada no país foi o Kymriah® (tisagenlecleucel), da empresa Novartis Biociência, cujo uso já estava autorizado em diversos outros países. No Brasil, o tratamento pode ser indicado para pacientes de LLA com até 25 anos e pacientes adultos com Linfoma Difuso de Grandes Células B.

Já a segunda, o Carvykti® (ciltacabtageno autoleucel), da empresa Janssen-Cilag Farmacêutica, é recomendada para pacientes de mieloma múltiplo que já realizaram, pelo menos, três terapias anteriores. Pouco antes da autorização no Brasil, a terapia foi aprovada pela agência de fiscalização dos Estados Unidos.

Como funciona o tratamento com a CAR-T Cell

Apesar das terapias serem de fabricantes diferentes, o mecanismo de ação é o mesmo em ambos os casos. O Dr. Phillip Scheinberg, coordenador da Hematologia do Centro de Oncologia e Hematologia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que esses tratamentos com CAR-T Cell aprovados pela Anvisa funcionam utilizando os próprios linfócitos do paciente. Essas células são removidas, por meio de um processo chamado aférese; em seguida, quando já estão fora do corpo, são modificadas para que passem a reconhecer, de forma mais específica, as células doentes.

Explicação De Como Funciona O Tratamento De Cancer Com A Car-t Cell

“Essas modificações do linfócito T do paciente são realizadas em ambiente extremamente controlado em laboratório com um alto rigor de qualidade e de segurança. Esse processo de modificação e expansão dessas células T modificadas demora em torno de três a quatro semanas”, ele conta.

Depois que essa etapa foi concluída, os linfócitos T modificados são inseridos no corpo do paciente. Quando já estão no organismo, eles se multiplicam normalmente, mas com a diferença que agora todos terão o “poder” de reconhecer com mais facilidade as células do câncer. Uma vez que encontram as células doentes, eles disparam uma série de proteínas que são letais.

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Para quem a terapia é indicada?

No caso do Kymriah®, como falado anteriormente, o principal critério é que os pacientes de LLA devem ter até 25 anos e os de linfoma difuso de grandes células B devem ser adultos. Entretanto, não são todas as pessoas desses dois grupos que podem ser beneficiadas pelo método. 

“Essa terapia, hoje, não é empregada nos tratamentos iniciais dessas doenças. Isso acontece porque os tratamentos mais convencionais à base de quimioterapia ou transplante de medula óssea (TMO) costumam ser eficazes em grande parte dos casos”, o Dr. Scheinberg esclarece.

Pessoa Ao Lado De Diversos Remédios Para Tratamento Oncológico

Dessa forma, o Kymriah® só pode ser utilizado em pacientes recidivados ou refratários, para os quais os tratamentos convencionais não são efetivos. O doutor acrescenta que, nesses casos, a terapia celular com CAR-T pode ser uma opção curativa.

“Temos visto, nas publicações e apresentações em congressos, pacientes que já haviam recebido várias linhas de tratamento com progressão da doença e que, após a terapia CAR-T, observamos remissões (ou ausência de progressão) em torno de 60% nos casos da LLA refratária e em torno de 40% nos casos dos linfomas difuso de grandes células B”, ele descreve.

Já o Carvykti® não tem restrição de idade, porém, como também  foi explicado anteriormente, é preciso que o paciente já tenha tentado, pelo menos, três linhas de tratamento e não respondido a elas. 

“A atividade das drogas dessas classes são bastante efetivas no controle e no tratamento do mieloma múltiplo. Porém, há pacientes que, apesar de terem sido expostos a essas três classes de drogas, ainda apresentam uma doença que progride na vigência desses tratamentos ou que recidiva logo após a descontinuação desses tratamentos, refletindo uma biologia mais agressiva e refratária”, o especialista pontua.

É preciso saber que poucos centros de tratamento estão autorizados a realizar essas terapias. Ao todo, são menos de cinco hospitais. 

Leucemia linfoide crônica e terapia CAR-T Cell

Um estudo, também publicado em fevereiro deste ano, apresentou resultados bastante positivos sobre dois pacientes de leucemia linfoide crônica (LLC) que fizeram tratamento com a técnica CAR-T. Segundo os pesquisadores, os linfócitos modificados permaneceram funcionando após 10 anos da infusão e os dois voluntários permaneceram em remissão durante todo esse tempo. 

Paciente De Leucemia Linfoide Cronica Curado

Doug Olson, um dos pacientes, foi diagnosticado com LLC em 1996 e, em 2010, passou a fazer parte da pesquisa clínica. 

“Embora tenha sido aterrorizante ouvir que eu tinha câncer, eu realmente não precisei de muito tratamento por cerca de seis anos (…) A quimioterapia me deixou em remissão por mais cinco anos, e então as coisas começaram a piorar rapidamente depois disso, e em 2010, cerca de 50% da minha medula óssea era LLC”, Olson contou em uma coletiva de imprensa.

Quando a progressão aconteceu, o médico disse que ele poderia fazer um TMO ou participar de um estudo de terapia CAR-T. Olson optou pela segunda opção e se tornou voluntário da pesquisa.

O Dr. Scheinberg fala que apesar da notícia positiva, atualmente, esse tratamento não seria muito vantajoso para as pessoas com LLC.

“É curioso notar que quando a terapia CAR-T foi empregada nesses pacientes, há mais de 10 anos, havia poucas opções de tratamento disponíveis para os casos refratários. Por isso que a terapia foi utilizada. Contudo, houve grande evolução nos tratamentos da LLC e, hoje, não se aplica a terapia CAR-T para essa doença, uma vez que as terapias com medicamentos avançaram muito e são preferíveis.”

Por conta disso, a LLC não tem sido incluída nos principais estudos que avaliam o método. Sendo que também não deve entrar na lista de indicações da terapia nos próximos anos.

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Futuro da terapia CAR-T Cell na Onco-hematologia

A técnica vem sendo estudada para outros subtipos de linfomas e, inclusive, já obteve aprovação de agências regulatórias em outros países. O Dr. Phillip Scheinberg considera que “nos próximos anos, com mais estudos e o avanço dessa tecnologia, a lista de doenças em que se beneficiaram da terapia CAR-T tenderá a aumentar.”

Ele ainda diz que já há diversos estudos sendo realizados, mas que a maioria acontece nos Estados Unidos, Europa ou na Ásia. Por outro lado, no Brasil, somente recentemente alguns protocolos de pesquisa vêm chegando, mas ainda de forma tímida.

Dentre as principais questões estudadas, está a possibilidade de realizar a terapia CAR-T mais precocemente para doenças de maior risco. Ou seja, para pacientes que, no momento do diagnóstico, tiverem uma doença sabidamente de maior risco, em vez de esperar acontecer a recidiva/refratariedade a diversas linhas de tratamento, a terapia genética já seria realizada mais cedo. Assim, a pessoa não seria exposta a tantos tratamentos e poderia alcançar a remissão (e mantê-la) com mais rapidez.


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Meu Deus fiquei muito feliz com essas notícias. Tenho linfoma folicular a dois anos e não entendi se eu me encaixo neste tratamento mas mesmo assim me deu mais esperanças de cura.

Eu tbm tenho linfoma folicular, descobri há um mês. Assim como você estou muito feliz e esperançosa pois já conversei com minha médica e tem estudos com essas células para LF.

Que alegria ouvir sobre a terapia CART-Cell, todos os tipos de LLA tem a possibilidade de se beneficiar? E até o momento está liberada para atendimento SUS ou somente particular?

Escrito por:

Natália Mancini

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