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A sexualidade também é importante durante o câncer

Homem E Mulher Deitados Na Cama
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Entender como lidar com este processo pode gerar uma grande melhora na qualidade de vida do paciente. Para tal, manter um diálogo aberto em casal, e com o médico, é fundamental

Escrito por:

Natália Mancini

A sexualidade e o câncer são duas questões que estão altamente ligadas, uma vez que é comum encontrar pacientes oncológicos que apontam ter perda de libido durante o tratamento. 

Em uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), com mais de 1300 pacientes de linfoma, 83% dos entrevistados apresentaram perda de libido e/ou dificuldade no sexo. Apesar de ser um efeito colateral frequente, esse é um assunto que raramente é trabalhado, especialmente durante as consultas com o onco-hematologista. Mas há diversas formas de estimular tanto a sexualidade quanto a libido nesse período, seja de maneira solo ou em casal. 

É importante ressaltar que, apesar da pesquisa ter sido realizada com pacientes de linfoma, a perda de libido durante o tratamento é algo presente para quase todos os tipos de neoplasias malignas. O Dr. Ricardo Helman, hematologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, conta que os principais motivos para esse efeito colateral acontecer são os quadros de fadiga, anemia e inflamação crônica. 

Como nos linfomas são utilizadas quimioterapias com efeitos similares às utilizadas para outros tipos de tumores, os motivos são quase os mesmos. A diferença é que “na prática médica, os linfomas e leucemias são doenças que devem ser tratadas rapidamente, com alto risco de morte se não tratados. Nessa situação emergencial as questões relacionadas à sexualidade acabam ficando em segundo plano. No caso dos linfomas indolentes, quando temos mais tempo para tratar os pacientes, acabamos levando essas questões em conta”, o Dr. Helman explica. 

Entretanto, mesmo que não seja possível trabalhar a sexualidade durante o  câncer com o médico responsável pela terapia medicamentosa, há outras formas de fazer isso.

O que é a sexualidade?

Primeiramente, é importante entender que a sexualidade vai muito além do ato sexual, especialmente o ato com penetração. De acordo com a Drª. Clara Pereira, fisioterapeuta pélvica e doutora em sexualidade, “está relacionada a uma energia que nos faz buscar algo que nos dá prazer, independentemente do tipo de prazer, não necessariamente prazer sexual e atividade sexual. Por exemplo comer, dormir, amar, namorar. Todo indivíduo tem sexualidade desde que ele deseje obter algum tipo de prazer. ”

Mulher Feliz Com A Sua Sexualidade

Isto é, a função e o ato sexual estão dentro do campo da sexualidade, são uma das maneiras de buscar prazer. Mas não as únicas.

A sexualidade é, inclusive, considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos fatores essenciais para a qualidade de vida do ser humano. Isso acontece porque a pessoa precisa estar bem com a sua orientação sexual, identidade de gênero e afins para poder estar bem consigo mesmo e, consequentemente, ter uma boa qualidade de vida.

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A sexualidade e o câncer

Como falado anteriormente, a sexualidade raramente é uma prioridade durante o tratamento oncológico, mesmo sendo uma questão frequente na vida dos pacientes. Mas é algo que acontece – seja por motivos relacionados aos medicamentos, psicológicos ou até mesmo à forma que a sociedade construiu e enxerga o prazer sexual – e que é preciso falar sobre. 

Homem Com Problemas Sexuais

“Dependendo do tipo de câncer que a pessoa tem, a falta de libido vai acontecer ainda mais, porque no câncer ginecológico, por exemplo, a mulher pode ter uma estenose vaginal e ressecamento da vagina. Já no câncer de próstata, o homem retira a próstata. Então, ele pode ter uma disfunção erétil, um desejo sexual hipoativo, para de ejacular e ele acha que o orgasmo está relacionado a isso e não está”, a Drª. Clara esclarece.

É sempre importante lembrar que o prazer sexual é um dos componentes da sexualidade. Assim, há outros fatores que podem ser trabalhados. 

“Geralmente, as pessoas relacionam sexualidade com ato sexual em si. Só que a sexualidade não está ligada, exclusivamente, ao sexo, mas sim ao bem-estar dessa pessoa. Então, é importante ela se sentir feminina, se sentir masculino, não deixar de lado os cuidados pessoais. Como uma maquiagem, como o uso de um batom, cuidados próprios, a autoestima. É fundamental trabalhar isso, porque a sexualidade está relacionada com qualquer prazer. Dessa forma, se esse paciente tiver vontade de comer alguma coisa, que esteja autorizado, coma, isso é sexualidade. É preciso olhar para si e ver que tem vida. E se há vida, há sexualidade”, a fisioterapeuta diz.

Sexo e câncer: redescobrindo o prazer

Dar o primeiro passo pode ser algo difícil, bem como reaprender quais são os toques e ações que trazem prazer, uma vez que nem tudo que gerava satisfação antes do tratamento continua gerando durante esse período. Então, a doutora em sexualidade aconselha buscar formas de retomar a intimidade a dois, por meio de uma massagem, um carinho ou tomar banho juntos, por exemplo. 

Homem E Mulher Deitados Abraçados Na Cama

“O fato de estar presente ali no momento, um curtir o outro, fazer um carinho, demonstrar um carinho e uma atenção, isso são fontes de prazer”, pontua.

Para aqueles pacientes que se sentem confortáveis e têm vontade, também há algumas formas de buscar e estimular o prazer sexual. A Drª. Clara lembra que a relação sexual não, necessariamente, precisa envolver a penetração. É possível ter prazer estimulando outras áreas do corpo.

“Nós podemos estimular a libido de várias formas, tanto para o homem quanto para a mulher. Nós podemos estimular por meio de leituras eróticas, filmes eróticos não pornográficos e de alguns recursos que eu gosto de chamar de ‘recursos alternativos’. Por exemplo, o bullet, que é um estilo de vibrador cuja forma não é fálica e que acaba estimulando outras regiões. Porque, apesar de nós termos o órgão genital, o maior órgão  sensorial do nosso corpo é a pele. Então nós temos várias áreas erógenas, assim podemos redescobrir e estimular o prazer em várias regiões. Como estimular a mama, tanto do homem, quanto da mulher, a orelha etc. Por isso a importância do toque, de um autoconhecimento e de um tocar o outro e o que lhe dá prazer. ”

O papel da parceria na sexualidade durante o câncer

Independentemente de quem seja essa parceria, ele(a) tem um papel muito importante nesse processo de redescobrir o prazer. A Drª. Clara reforça que as preliminares não começam na cama, então o resgate da sexualidade tem início no dia-a-dia e na rotina um com o outro. 

Casais Se Abraçando

“O jeito que fala, a forma que trata, a forma que conversa, o carinho, o gesto, é fundamental observar isso e procurar ver o quanto a pessoa está aberta. É importante também o paciente oncológico se permitir e estar aberto para receber um carinho, um afago, um estímulo não necessariamente sexual, mas que possa se tornar, depois, algo sexual”, ela aconselha.

Entretanto, por outro lado, é essencial a parceria também compreender caso o(a) paciente não queira ter relação. Por esse motivo, o diálogo e a conversa são essenciais para que os dois possam se entender, ser receptivos e a parceria conseguir, efetivamente, ajudar a resgatar essa intimidade e a sexualidade.

“Eu acredito que a base de tudo vai estar no diálogo entre os dois e também o quanto que o paciente vai estar receptivo a receber esses estímulos”, a especialista pontua.

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Conversando sobre a sexualidade e o câncer

Além da parceria, outra pessoa muito importante para conversar sobre essas questões é o(a) médico(a) responsável por acompanhar o tratamento. Mas, para algumas pessoas, essa conversa pode ser constrangedora e, por isso, elas optam por deixar esse assunto de lado. Outra situação comum é o(a) oncologista também não abordar essas questões e, dessa forma, cria-se uma barreira.

Homem Conversando Com Médico Sobre Sexualidade E Câncer

O Dr. Ricardo Helman crê que esse muro pode ser derrubado ao “estreitar a relação médico-paciente, com tempo maior de consulta e empatia por ambas as partes envolvidas no processo. ”

A Drª. Clara Pereira acredita que outro fator fundamental é quebrar o tabu de falar sobre sexo e sexualidade na sociedade.

  “Cada vez mais a gente está se especializando, buscando conhecimento e encarando, olhando com um olhar diferenciado para a sexualidade. Então, precisamos nos despir de todo preconceito, buscar conhecimento, respeitar o outro e, principalmente, mostrar para o(a) paciente que ele(a) está vivo e enquanto há vida, há sexualidade. Enquanto há vida, ele pode viver da melhor forma possível, então precisamos buscar isso e passar para o(a) paciente. E caso o(a) profissional não saiba passar essa informação, se ele souber encaminhar para o especialista adequado, já ajuda bastante”, diz.


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Natália Mancini

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