Conheça a história da jovem que venceu um linfoma e, sete anos depois, uma leucemia
Isabella Marion venceu um linfoma de Burkitt em 2018 e, em 2025, uma leucemia mieloide aguda com mutação TP53
“No mesmo dia que eu descobri que eu não tinha entrado em remissão, soube que a minha irmã não era compatível comigo para o transplante e que eu tinha a pior mutação que se pode ter com a leucemia, que é a do TP53”. Quem viveu tudo isso foi Isabella Marion, hoje com 30 anos e em remissão da leucemia mieloide aguda (LMA) que teve depois do tratamento para um linfoma de Burkitt.
O linfoma de Burkitt
Em 2018, Isabella tinha 22 anos e estava terminando a faculdade quando notou um nódulo perto do pescoço. Depois de algum tempo, ela começou a sentir dor. “Fui em vários médicos, no final, eu consegui uma biópsia e saiu que eu tinha linfoma de Burkitt. Ele é super rápido de espalhar. Quando eu descobri, eu já estava em estágio 4B, ele estava além dos linfonodos, no útero, ovário, fígado, baço, mama e 98% da medula”, conta Marion.
Quando o resultado da biópsia saiu, na mesma semana, Isabella começou a quimioterapia. Ela fez oito ciclos de tratamento, que duraram nove meses. “Eu entrei em remissão completa, voltei para a faculdade, para a minha vida normal. Completei os 5 anos em remissão e comemorei que eu estava curada. Perto de fazer os meus seis anos, comecei a ter dor no corpo”.

A leucemia secundária
Uma das sequelas do linfoma foi uma imunodeficiência primária. Assim, todos os meses Isabella fazia uma infusão de imunoglobulina. “Eu sempre ficava meio ruinzinha e achava que a dor no corpo era por conta disso. Mas aí a dor foi aumentando e eu voltei aos hematologistas que me acompanharam na primeira vez. Fizemos uma biópsia e veio o resultado, uma LMA secundária ao meu tratamento”, relata Marion.
Após o diagnóstico, ela foi internada imediatamente para começar a quimioterapia. Isabella conta que, por ter passado anteriormente pelo linfoma, pensou que saberia como seriam os processos para tratar a leucemia. “Desde o começo, eu já sabia que ia precisar do transplante alogênico, por conta de ser uma LMA secundária”, afirma.
Enquanto Isabella fazia sua primeira quimioterapia para a leucemia, sua única irmã foi testada para entender se havia compatibilidade para a doação de medula óssea. Após a primeira dose do tratamento, Isabella não conseguiu entrar em remissão para o transplante, descobriu que sua irmã não era compatível e que tinha a mutação TP53, o que significava um prognóstico ruim.
“E aí eu joguei aquilo no Google e vi que a minha taxa de sobrevivência era mínima. Veio tudo isso de uma vez na minha cabeça. Fiquei muito mal uns dias, depois tive que recuperar a força de algum lugar”, recorda.
Essas notícias chegaram a ela numa quinta-feira. Na segunda, Isabella começou um novo ciclo de quimioterapia. A equipe médica decidiu buscar doadores no banco de medula óssea e testar a compatibilidade dos primos.
No banco de medula, foram encontrados doadores, porém não foi possível seguir para o transplante. Algum tempo depois, o resultado dos testes mostrou que um dos primos de Isabella era compatível. “Eu tinha um primo que era 50% e, assim, a partir do momento que a gente soube que ele era compatível, parece que as coisas começaram a dar certo”, narra. Em seguida, a biópsia mostrou que ela estava em remissão e poderia realizar o TMO.
“Eu transplantei a medula dia 21 de janeiro do ano passado. Eu estava me preparando para ser muito difícil, muito ruim, mas no final eu não tive nenhum efeito colateral muito pesado”, relata.
Isabella lembra que a equipe médica esperava que a pega da medula acontecesse entre o 17º-20º dia após o TMO, já que a medula implantada era somente 50% compatível. Porém, Marion acreditava que seria no 12º dia.
“Eu sou devota de Iemanjá e eu falava que queria muito que minha medula pegasse no dia de Iemanjá. E minha medula pegou no dia D+12. Eu sou muito de procurar significado nas coisas, então eu me agarro nessas coisas”, relembra.

No total, Isabella ficou 117 dias internada para o tratamento da leucemia. Quando ela voltou para casa, seus vizinhos e os comércios das redondezas já não eram mais os mesmos. Durante todo esse tempo, ela não sentiu o sol, o vento, o frio ou o calor na pele.
O que a animou e a acompanhou durante a internação foram os origamis de tsuru. A lenda conta que se uma pessoa fizer mil tsurus de origami com a intenção de realizar um desejo, ele pode ser realizado. A ave é, na cultura japonesa, um símbolo de saúde e paz.
Isabella decidiu fazer mil tsurus por sua saúde enquanto estava internada. “Aquilo salvou tantas vezes a parte psicológica. Porque quando dava tudo errado, nos piores dias, era quando eu mais fazia tsuru. Eu entrava naquele mundo, saía do celular e parava de pesquisar”, relembra.
O pós-TMO

A biópsia pós TMO mostrou que Isabella estava sem células cancerígenas. Porém, ela começou a ter febres e a enxergar mal. “Internei numa segunda e em quatro ou cinco dias eu estava cega. Ninguém sabia o que eu tinha e eu fui perdendo a visão”, afirma.
Foram 20 dias sem enxergar devido a uma reativação do vírus da herpes no líquor, o que causou necrose em alguns pontos da retina. Com o tratamento, Isabella conseguiu recuperar quase 100% da visão.
Uma outra intercorrência do TMO aconteceu quando ela voltou a ter contato com pessoas. “Eu comecei a me sentir meio fraca e com falta de ar. Fui ao pronto-socorro achando que eu estava com ansiedade e na verdade eu estava tendo um choque cardiogênico”, diz, acrescentando: “Eu fui direto para a UTI, descompensei plaquetas, hemácias, tudo. Então, era muito difícil de intervir, mas ao mesmo tempo era necessário porque meu coração já estava numa situação muito complicada”.
O choque cardiogênico é uma complicação rara e grave do TMO. Na UTI, os médicos discutiram tratamento paliativo para Isabella, pois a suspeita era de recaída da leucemia.
“Aos poucos meu coração foi se recuperando, eu consegui sair da UTI e, quando saí, tive a mudança de visão que as pessoas dizem ter depois do câncer”, recorda e frisa: “Eu decidi que ia realmente viver, que ia fazer tudo o que eu pudesse fazer, que não ia deixar todas essas coisas de saúde pararem a minha vida e atrapalharem”.
Em janeiro deste ano, completou um ano do transplante e Isabella segue em remissão completa. Às pessoas recém diagnosticadas, ela deixa um recado: “a gente ouve muitas vezes que é muito difícil, mas muito difícil não significa impossível. E se alguém consegue, por que não eu? Por que não a gente?”.







